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8 de março de 2014

TU TE TORNAS ETERNAMENTE DECEPCIONADO PELAS EXPECTATIVAS QUE CRIAS



A gente se dá conta do quanto a vida é complexa quando certezas que parecem gigantescas, indestrutíveis e absolutas simplesmente desmoronam. Você poderia dizer "eu te amo" de todo seu coração, com a conotação totalmente afetiva e pra duas pessoas totalmente diferentes? Eu acreditava que não. Hoje eu tenho certeza que posso sim. E isso é assustador!

Não, eu não sou um canalha, logo, eu não estou namorando dois caras ao mesmo tempo. Ao contrário, terminei um relacionamento recentemente, por esse e alguns outros motivos, mas fez eu me sentir meio deprê e pensar bastante no assunto...


Um dos homens que eu amo é o meu extremo oposto. Ele é fogo e eu sou terra. Ele é o brilho, a intensidade, a ferocidade e efemeridade. Eu sou a estabilidade, a resistência, o conforto e a durabilidade. Nós estivemos juntos por alguns meses, o que me proporcionou uma felicidade tão múltipla, tão bonita e que eu jamais tive antes com alguém. Entretanto, ele teve grande dificuldade de digerir esse sentimento e, assim, me deixou. Poucos sabem o quanto eu sofri naqueles dias, o quanto eu aprendi no processo de superar o término, o como foi difícil seguir adiante e o quanto eu o quero de volta... mas com inúmeras condições de mudanças - minhas e dele - que eu não tenho certeza se algum dia ocorrerão. Ainda nos falamos, ainda gostamos muito um do outro, mas não estamos juntos em quase nenhum sentido.

O outro homem que eu amo ainda não é tão "homem", é mais como um menino. Ele parece muito comigo em vários aspectos: ambos somos terra, mas vemos a vida por ângulos bem diferentes. Vivemos uma história bonita de amor e de companheirismo que durou pouco mais de 5 meses, mas que acabou recentemente, desta vez porque eu quis e por inúmeros motivos além do já mencionado. Ainda o amo, mesmo que nosso relacionamento tenha se tornado numa espécie de amizade mal explicada. Ao deixá-lo, pensei que ele seria aquele que mais fosse sofrer entre nós dois, o mais fragilizado pela situação. Me enganei completamente, embora não tenha me arrependido da decisão do término.

Eu ainda sou amigo de ambos. Eu ainda converso com eles com razoável frequência. Eu ainda os amo. Eu ainda consigo vê-los como homens maravilhosos. Eu seria capaz de namorá-los novamente. Todas essas definições me parecem certas e ainda mexem com meus sentimentos, embora elas pertencem essencialmente e unicamente aos meus pensamentos, já que os motivos que justificaram os dois términos não foram resolvidos e as probabilidades de retorno com qualquer um deles é pra lá de remota...

O que eu ainda não sei é o que fazer ou como lidar com essa confusão. Eu sempre fui fiel a quem está comigo devido à entrega que eu dou ao sentimento que tenho. Agora, com essa nova experiência, me pergunto a toda hora a quem eu entregaria minha fidelidade. Questiono constantemente a possibilidade de amar dois homens ao mesmo tempo e, caso eu esteja enganado, qual deles eu realmente amo e qual eu apenas acho que amo. Perco as certezas que eu guardo e conservo cuidadosamente e sofro ao tentar organizar meu mundo sem elas, questionando, moldando e reconstruindo novos pilares.

Me resta a opção de sentir a decepção múltipla, pelas expectativas depositadas nesses dois relacionamentos fracassados, nesse amor sem resolução e na antiga certeza de que só se ama afetivamente uma pessoa por vez nessa vida.

16 de agosto de 2012

SOBRE TER E SER PAI


Fiz questão de passar o dia dos pais com o meu pai neste ano. Não exatamente por ser um ano mais especial ou porque ele mereça mais que nos anos passados, pois se existe uma diferença nessa atitude - e sim, existe uma diferença - ela é produto de uma longa auto-reflexão que tive poucos dias antes dessa data comercial. E há exatos dois posts, deixei bem claro a complexa e difícil relação que tenho com o meu pai, que é o resultado direto da vida familiar (ou ausência dela) que ele me proporcionou e da diametralmente oposta visão de mundo que nós dois temos.

Alguns dias antes do dia dos pais, eu me peguei pensando no quão boa tem sido a relação entre eu e ele, o meu pai. Não que ela seja sequer próxima daquela vida familiar ideal que as propagandas de margarina e as caixas de suco artificial ostentam, mas, ainda assim, está consideravelmente melhor do que foi ao longo dos meus primeiros 20 anos de vida. Ele não se mete muito na minha vida, eu retribuo e agradeço por esse comportamento. Ele não atrapalha e não se opõe quando o que eu faço o desagrada, mesmo que não também não me ajude, apoie ou participe disso. Ele não me dá despesas físicas, financeiras e emocionais e eu, mais uma vez, retribuo da mesma forma. Resta apenas uma convivência educada, de cumprimentos, de cooperação suave e bastante superficial, com algumas raras exceções. Sinceramente? Está muito bom do jeito que tá!

Talvez seja porque eu não seja mais criança/adolescente, eu hoje enxergo um lado sobre a paternidade que antes eu era incapaz de ver: meu pai não é obrigado a cumprir as expectativas que eu criei em cima dele e, além disso, ele não é culpado por tudo que me aconteceu de ruim na vida. É razoável que eu tenha que aceitá-lo por ser como é, da mesma forma que eu exijo que ele faça o mesmo por mim, sem mais perguntas ou interferências. Também não é justo que eu o julgue tão rispidamente pela sua ausência, principalmente porque eu tive uma mãe bastante interessada, disposta e capaz de ocupar os espaços vagos que meu pai deixou. Eu deveria, no mínimo, agradecer pelo fato de que ele não é e nunca foi uma pessoa diretamente ruim pra mim, embora tenha feito seus estragos indiretos... mas quem nunca?

E saindo um pouco mais do ponto de vista de TER um pai e passando para o de SER um pai, pergunto-me: estaria eu preparado pra essa tarefa? Porque, ao menos potencialmente, não há nada que me impeça de ser pai; embora tal pretensão não faça parte dos meus planos de curto, médio e longo prazo, pelo menos por enquanto. Eu só tenho a certeza de que ser pai é bem mais do que disseminar irresponsavelmente os próprios genes pelo mundo ou brincar de formar pessoinhas com personalidades, atitudes e escolhas numa forminha que satisfaça o seu prazer de progenitor.

Acredito que ser pai/mãe de verdade (sim, porque existem vários monstros brincando de ser pai e mãe por esse mundo) é evoluir o próprio sentido de viver, é entrar num nível novo de existência. Biologicamente, somos programados exclusivamente para cumprir uma tarefa: sobreviver, o tempo máximo possível e da melhor forma possível. A sobrevivência inclui duas modalidades: sobreviver individualmente (fisiologia pura: respirar, comer, beber, dormir, excretar, etc) e sobreviver como espécie (basicamente: procriar). Ter um filho é entender que sua sobrevivência individual é secundária perante a sobrevivência individual da sua progênie; é deixar de ser a coisa mais importante do mundo para colocar os seus filhos neste patamar de importância. E, sinceramente, acredito que poucas pessoas estão preparadas e dispostas a cumprir esse papel.

Pelo fato de eu ser um egoísta convicto e assumido, certamente não estou preparado e muito menos disposto a ter filhos. Meu nível de maturidade e inteligência emocional consegue reconhecer que no mundo existem pessoas de importância no máximo equivalente à minha (família mais próxima e amigos), mas ainda não quer ou pretende perder o posto de "Sol" para outra criatura, seja ela quem for. Apesar disso, estou bastante confortável com esta forma de levar a vida, sem previsão pra mudanças.

Consciente disso, como posso eu exigir do meu pai que ele faça por mim algo que eu nem sou capaz de fazer por um possível filho? E mais: como posso julgá-lo e afirmar que não fez/faz isso por mim? Sem parâmetros e sem o poder de ler e entender a mente do meu pai, com que direito eu posso condená-lo de ser um mau pai? Num futuro distante, onde eu já seja pai, serei eu um pai melhor do que o meu foi?

Eu não pude responder essas perguntas, nenhuma delas. Portanto, continuo pensando nisso e tentando ser um filho mais razoável. Afinal, a gente nunca sabe o que nos espera quando a vida te obriga a ser na primeira pessoa aquilo que você só conhecia em terceira pessoa.


"Você sempre me ensinou
a diferença do certo e do errado
Eu preciso de sua ajuda,
papai, por favor seja forte
Eu posso ser jovem no coração
Mas eu sei o que estou dizendo"

(Papa don't preach - Madonna)

17 de março de 2012

PACIÊNCIA


Eu fui riscando um após outro da lista, e foram muitos. Com os erros passados, a gente tem uma noção média de quem quer e quem definitivamente não quer por perto. É bem verdade que existe um lado cruel nisso, afinal, dizem que é feio jugar as pessoas por quem conhecemos no passado, não é mesmo? O fato é que existem incompatibilidades (algumas absurdamente óbvias) e critérios esquisitos e completamente inexplicáveis que criamos... e que seguimos, sendo cruéis ou não.

Restaram poucos entre os "aptos", ou potencialmente aptos, pelo menos. Infelizmente, eles estão ocupados, ou desinteressados, ou moram longe, ou estão comprometidos, ou são heterossexuais, ou são tímidos, ou uma série de outras explicações para definí-los como "indisponíveis". Eu tentei muitas, várias vezes e cansei. Vejam só, aos 24 anos (quase 25) e já estou cansado de tentar: faz bastante tempo que eu decidi que o próximo homem para quem eu entregaria aquelas 3 poderosas palavrinhas deveria ser cuidadosamente escolhido sem as variáveis que impedem uma boa seleção; carência, pressão social e opinião alheia, entre as principais delas.

De longe, parece que eu estou em busca da perfeição, um novo modelo ou uma nova justificativa pra me agarrar ao sonho do "príncipe encantado do cavalo branco". Tolice. De perto, os que me conhecem sabem que eu busco exatamente o oposto: defeitos. A parte fácil disso é que pra minha religião (considerada maluca por muitos) sequer acredita que os deuses são perfeitos, quanto mais os homens. Eu busco algo meio raro: defeitos em equilíbrio, defeitos que eu consiga engolir, mesmo que a seco.

Faz realmente muito tempo que eu enxerguei verdadeiramente o fato de estar junto de alguém como uma possibilidade, não uma certeza, menos ainda uma necessidade. Isso não mudou nem um pouco dentro de mim, mas não é todo dia que estamos fortes o suficiente pra sustentar o peso das nossas decisões e a perseguição das consequências destas. Hoje é só mais um dos vários desses dias em que a noite chega, o sono demora a vir e o pensamento acaba voando pra zonas obscuras e intocadas durante o dia-a-dia, pra cutucar nossas fraquezas e despertá-las. E ainda virão outros, com certeza. Nesses dias, é oportuno lembrar que foi fácil riscar a grande massa de pretedentes da lista; ser "riscado" por quem você selecionou é que acaba sendo difícil. Dói, fere o ego, desequilibra seu senso de "convicções".

Nesses dias obscuros, fica compreensível algumas formas de "suicídio moral" que eu cometo: beber demais (pra ficar mal mesmo), fumar, buscar sexo gratuito, comer e dormir em horários totalmente irregulares. Parece que causar a si mesmo dor física e emocional a resaca moral maior do que a dor da solidão ajuda a desviar a atenção desse "problema maior". Perfeitamente aceitável, totalmente ineficiente.

E no fim deste chato desabafo às 4:00 AM da madrugada, fica a semi-decisão de ignorar a lista, os riscados e os indisponíveis. Chega de perder tempo criando modelos de "Concurso seleção para ocupar a vaga no coração do Alysson" e critérios pra toda essa porra. As resoluções dos meus problemas emocionais nunca foram fáceis na minha vida mesmo, tá passando da hora de eu me acostumar.

OBS: abaixo a canção que eu uso pra ninar a mim mesmo. Uma espécie de "ei, você: gostaria de cantar esta música pra mim?".

8 de outubro de 2011

THE POWER OF GOOD-BYE




Nesses últimos dias parei pra pensar no poder do adeus — mas não o "adeus" usual, o até logo que serve de intervalo entre os encontros. A propósito, já perceberam que só nos despedimos com o pesado e formal "adeus" quando temos a intenção de torná-lo definitivo? Tamanho é o poder do adeus que até temos receio de usá-lo, afinal, significa abandonar permanentemente algo/alguém...

Em uma de suas melhores músicas (a que entitula o post), Madonna diz que não existe maior poder do que o poder do adeus. E eu quase chego a concordar. É claro que eu não me refiro apenas às despedidas definitivas; o verdadeiro poder do adeus é o poder do eterno e constanta desapego!

Hoje em dia criamos muitas necessidades "de vida ou morte". Francamente: até comer, beber, dormir, respirar e excretar, que são necessidades humanas reais, sofrem alguma tolerância mínima e, dentro dos limites, podem ser adiados. Entretanto, nossas maiores necessidades cotidianas tornaram-se irrelevantes: ter uma roupa nova para uma festa, assistir ao filme tal, ter um namorado constantemente, comprar a novidade tecnológica da moda, acessar o Facebook 2 vezes por dia, assistir ao último episódio de True Blood, etc etc etc... eu mesmo mantenho boa parte dessa lista como algo de moderada importância.

Bem, isso é algo natural: como humanos que somos, criamos vínculos com aquilo que nos agrada. Se uma experiência é (dentro nos nossos parâmetros) prazerosa, então temos vontade de repeti-lá, mesmo que não seja algo plenamente saudável. E convenhamos que isso acontece com uma freqüência absurda, ao conhecer pessoas, ao degustar comidas e bebidas, ao experimentarmos novos lugares, ao interagirmos com objetos, etc. O problema é que nossos vínculos quase sempre ultrapassam o limite do prazer pro patamar de "apego necessário". Basicamente, um vício em pequena ou grande escala.

Não, eu não estou aqui pra fazer a linha falso-moralista do desapego material, da abstinência sexual, do anti-alcoolismo ou anti-tabagismo e afins. Acho que esse modelo cristão de ver as coisas é absolutamente prejudicial, tornando todas as formas de prazer em pecados capitais. Séculos de privação global do prazer humano tornaram nossa sociedade hipócrita, preconceituosa, auto-punitiva e infeliz, e se existe algum tipo de "salvação" depois de todo esse desgosto, acredito firmemente que ela não me apetece e não vale a pena. Sim, meu sobrenome poderia ser "hedonismo", desde que praticado com moderação.

O grande problema do nosso apego desmedido é que ele adquire caráter de necessidade. Não basta gostar de chocolate, é necessário ter uma dose à disposição o tempo todo ou com uma freqüência estável e fixa, caso contrário, ficamos frustrados. O exemplo acima ilustra a forma como tratamos as coisas que nos proporcionam algum tipo de prazer: primeiro apreciamos uma experiência, depois desejamos repeti-la, depois precisamos de uma freqüência estável em nossas vidas e, antes que possamos perceber, uma interrupção ocorre e entramos em algum grau de abstinência, sofrimento e frustração pela ausência do que desejamos. Façam uma auto-avaliação e perceberão que isso acontece a toda hora, todos os dias e com as coisas mais bobas. A melhor prova disso são as marcas: quantas vezes e quantas marcas você experimenta de um determinado produto antes de decidir qual é o melhor?

E finalmente entrando no foco do assunto, vocês observaram como é realmente grande o poder do adeus? O poder de dizer adeus às coisas sem sofrer com o fato? A capacidade de aproveitar uma circunstância de prazer e apenas apreciá-lá como se fosse a última vez, ao invés de criar vínculos de necessidade que provavelmente terminarão em frustração? Imaginem quanto sofrimento social, afetivo, financeiro, material e sexual evitaríamos. Imaginem quantas situações de lamento e perda deixariam de existir. Imaginem como iríamos encarar melhor situações de perda e roubo material, términos de relacionamentos, falecimentos de entes queridos e similares. Imaginem ainda como nossas vidas seriam mais intensas, emocionalmente falando: iríamos aproveitar o que já consideramos como "bobagens cotidianas" com muito mais vida, como um nascer/pôr do sol, um sorvete de creme, um abraço de quem a gente ama, um pequeno capricho ou conquista realizada...

E ao chegar a essa conclusão, do quão poderoso é o poder do adeus, eu percebo o quanto ainda somos pouco evoluídos emocionalmente e, por que não, espiritualmente; o quanto ainda temos que aprender; e, principalmente, o quanto uma maioria esmagadora de humanos vai continuar reclamando da vida e se sujeitando a auto-punição apenas porque não foram capazes de aprender algo que sempre esteve diante dos olhos, mas não foi visto.

14 de maio de 2011

SOBRE PSEUDO-AMORES E PONTOS FRACOS



Eu não gosto de pseudo-amores, daqueles que surgem em instantes e, feito ebola, infectam cada centímetro do sujeito, que torna-se capaz e audacioso o suficiente pra proferir o “eu te amo” sem a devida importância que essas três palavrinhas possuem. Se você está apaixonadamente inflamado e deseja declarar ao mundo esse sentimento, fique à vontade, mas não subestime o significado da palavra amar, não na minha frente. Você tem todo direito de ser o alvo do famoso “amor à primeira vista”, desde que cumpra aos seguintes pré-requisitos: 1) ser um teenage, bem adolescente típico mesmo; 2) ser virgem; 3) ser totalmente inexperiente sentimentalmente (o que engloba 99% do universo dos dois requisitos anteriores). Eu não acredito em amores prontos. Não acredito também que uma fada depositará pó de pirlimpimpim na minha vida e magicamente fará meu grande amor surgir. Acho que nem preciso dizer o que penso do cupido e da lenda do príncipe encantado, né?

Mesmo correndo o risco de ser chato por martelar nesta mesma tecla há meses, reafirmo que, desde que decidi percorrer voluntariamente a solitária e congelada “floresta-do-amor-próprio”, percebi que é possível remover tantas situações sentimentalmente desagradáveis da vida que pouca coisa tem me tentado a voltar ao colorido “jardim-das-paixonites-temporárias”. Pode parecer medo de enfrentar possíveis amores, medo de dar a cara pra bater, mas não é não: o “nível” das pessoas que andam aparecendo e se jogando na minha vida só me faz constatar que, sim, eu mereço coisa melhor. Melhor do que rostos/corpos bonitinhos de cabeça vazia, teenages sonhadores e imaturos, máquinas de sexo fast-food, gente mal resolvida, gente comprometida, gente fútil, gente carente e arquétipos similares. Se tudo que merece ser feito merece ser bem feito, por que no amor teria que ser diferente? Mas, infelizmente, isso é só uma meia verdade...

Entretanto – e é com muito pesar que eu digo este “entretanto” – eu recentemente me peguei observando e pensando em desconhecidos e tendo surtos de “paixonites” com direito a historinhas imaginárias idealizadas. É bizarro, mas parece que o tiro saiu pela culatra: eu conscientemente sei que é IMPOSSÍVEL desenvolver sentimentos mais profundos por pessoas que você sequer conhece além da aparência e das duas frases trocadas no MSN, na academia, no ônibus, na fila do banco, enfim; mas é exatamente por esses sujeitos (e muitos deles nem são bonitos) que eu vendo desenvolvendo pseudo-amores. Irônico, não? Quando eu finalmente me acho capaz de abstrair a necessidade de ter alguém (possivelmente inadequado), e evitar todas as turbulências de um mau relacionamento, a vida me prega uma peça e me faz desenvolver esse tipo de sofrimento de forma ilusória e por antecipação em desconhecidos aleatórios...

Por sorte, como eu disse em outros posts, eu já estou bem crescidinho e imune aos efeitos negativos da carência (mas não a ela em si). Eu não me preocupo com nenhuma dessas possibilidades estúpidas e nem desenvolvo nenhum tipo de expectativa por elas. O que me machuca é ver e sentir o quanto as coisas que eu mais odeio estão exatamente aqui, escondidas em alguma parte de mim. O que dói é ver que, a cada vez que eu aponto com 1 dedo o comportamento negativo alheio, 3 outros dedos devolvem pra mim o fardo de eu estar manchado com a mesma mácula. O que me maltrata é saber que essa lição eu ainda não aprendi...

OBS: Pra ler antes/depois – É pra já! (brilhante!!!)
OBS 2: Pra ouvir antes/depois de ler:
Long Way To Happy - P!nk
I Caught Myself - Paramore

26 de abril de 2011

EI VOCÊ, QUE ESTÁ SOZINHO...


Há algumas semanas atrás, eu comecei a jogar umas frases de auto-reflexão no twitter que fizeram certo sucesso, mas que só aumentaram uma inquietação dentro de mim. As frases, basicamente, falavam de um problema batido e rebatido: insatisfação e carência por ausência de relações afetivas, ou seja, solteirice crônica. Quem não conhece ao menos um indivíduo que não faz nada além de queixar-se por estar sempre sozinho(a), sempre sem namorado(a), sempre reclamando que ninguém o(a) quer, sempre exaltando suas qualidades de boa companhia?

O fato é: o quanto essas mesmas pessoas estão preparadas para ter um relacionamento? Porque o que se vê na maioria dos casos, é um grau absurdo de carência; ausência total de experiência afetiva; dependência física, sentimental e sexual; excessos de atitudes negativas como imaturidade de uma forma geral, ciúme e desconfiança; pouquíssima disposição pra ceder e aprender; intolerância a erros alheios; extrema seletividade e exigências para com os “possíveis candidatos” e praticamente nada, eu disse NADA, a oferecer. Não é a toa que o mantra reclamão que pede por um namorado é tão massivamente repetido por pessoas sem um pingo de auto-estima, incapazes de amar a si mesmas e pretensiosamente crentes que merecem ser amada pelo melhor dos companheiros.

Sério, antes de desejar e esperar alguém que possa te fazer feliz, não seria apropriado aprender a ser feliz sozinho? E se, eventualmente, esse alguém que aparecer na sua vida estiver muito mais necessitado de ajuda e apoio na busca da própria felicidade do que disposto/capaz a te guiar pra felicidade? É complicado pedir amor dos outros quando não temos a capacidade de amar aquilo que nós somos. Pensando um pouco mais nisso, se alguém é tão incapaz de amar a si próprio, será que tal alguém possui características que mereçam ser amadas? Hábitos, comportamentos e formas de pensar podem ser reprogramados, vícios e defeitos podem e devem ser corrigidos quando identificados. Mas e se não houver interesse nem senso crítico suficientes pra corrigir o que temos de ruim, como esperar que outras pessoas se mobilizem e nos amem por quão ruim somos ou podemos ser? Complicado, né?

Fora o problema das exigências exageradas, quase num nível ridículo. É absurdo ver alguém, que tem tão pouco a oferecer, exigindo tanto dos outros. Entre os vários pré-requisitos – como beleza, inteligência, papo, atitude, bom-humor, complacência, coerência, paciência e, é claro, há quem exija gordo contra-cheque e conta bancária – existem pessoas esperando nada menos do que verdadeiras perfeições humanas, mesmo sendo tão medíocres. É claro, seria hipócrita dizer que as pessoas com a famosa beleza “comercial” (homem sarado, mulher gostosa) não são atraentes; desejá-las é algo absolutamente normal. Mas fazer do ápice da beleza (ou de qual qualquer outro pré-requisito) uma exigência rigorosa é tão eficiente quanto desejar acertar na loteria sem jogar. Outro problema é moldar um parceiro dos sonhos, mas sem ter a capacidade ou qualidades necessárias para atraí-lo. Ok, se você não é muito bonito e a natureza não o ajudou, isso é algo meio difícil de modificar e tal, mas é possível se vestir bem (que nada tem a ver com marcas e roupas caras), tornar-se interessante (ler ajuda, viu?), ter atitude, ser bem-humorado, enfim: é possível ter o que oferecer, fazer sua moeda de troca pra conseguir alcançar aquilo que se deseja. Complicado é esperar sentado por um príncipe imaginário que, convenhamos, não vai chegar...

E finalizando, é necessário saber lidar com um problema real: CARÊNCIA! Estando há quase um ano solteiro, desde que mergulhei de cabeça no modo “Frozen”, fica incrivelmente fácil ver isso, aos poucos eu me tornei meio imune aos efeitos negativos da carência, mas não à carência em si. É claro que eu tenho meus momentos de solidão, de desejar ter alguém pra abraçar, pra conversar e pra me apoiar, de um jeito que amigos e amigas não podem ajudar, mas é necessário não permitir que isso abale seu senso de estabilidade racional e emocional. Uma vez solteiro por opção, eu consegui perceber o quanto as pessoas muitas vezes se agarram a um “qualquer” só pelo medo de ficarem sozinhas por mais tempo. Todos esses sinais de solidão e carência destroem minuciosamente o senso de crítica e percepção daquilo que queremos pra nós mesmos. Os resultados desastrosos se refletem em cada relacionamento mal-sucedido, abalando a fé em acreditar que alguém realmente legal possa gostar de você. Eu mesmo percebi isso nos meus relacionamentos anteriores, eu mesmo percebi e decidi corrigir tal erro.

E se ainda assim, nada disso for suficiente pra que a companhia dos sonhos apareça na sua vida e torne-a perfeita, a dica é: ESQUEÇA ISSO! Vá se divertir com seus amigos, estudar/trabalhar, assistir filmes, pegar um sol, curtir uma praia, praticar esportes, fazer exercícios, ouvir boa música, ler bons livros e blogs, rir com seriados ou com a internet, pirar em festas, praticar sua espiritualidade, se distrair, se concentrar, meditar, faça a vida valer a pena. Faça da ausência de um companheiro a desculpa que faltava pra iniciar a busca da felicidade por conta própria, mesmo que seja sozinho. Não digo isso num sentido de “enfeitar o seu jardim” pra que um dia você seja capaz de “atrair as borboletas”; às vezes as mais belas borboletas estão dentro de casa, numa bela flor que foi deixada aleatoriamente sobre um móvel, e você nunca percebeu porque estava concentrado demais no jardim do lado de fora da janela. Às vezes a felicidade não depende de “borboletas”. Pense nisso!

Pra ouvir e refletir depois de ler: A sombra - Pitty (dica do @mauricioalbino).

29 de outubro de 2010

FOGOS DE ARTIFÍCIO


Eu não estou postando este clipe porque a Katy Perry é uma diva pop, ou porque o clipe foi lançado ontem ou porque toda a massa GLBT (principalmente a G) já viu, aprovou (ou não) e já decorou toda a letra da música e a música. Não, também não tem nada a ver com o beijo gay. Eu detesto modinha e, apesar de adorar sim a música pop, eu não gosto da forma como ela é supervalorizada atualmente, sendo uma fútill substituta da cultura decente. Mas a Katy realmente me surpreendeu com este novo clipe.

Eu já ouvi todo o novo CD dela e já conhecia a letra de “Firework” (fogos de artifício). Eu já gostava da música e já havia captado a mensagem por trás da letra. Quando soube que seria o próximo single do CD, bateu ao mesmo tempo uma satisfação e um medo: será que o clipe vai ser tão bom quanto a letra e a melodia da música? E olha só que bela surpresa... veja você mesmo(a):



Katy Perry e sua equipe conseguiram demonstrar uma postura positiva, de enfrentamento dos seus medos e preconceitos, de visibilidade externa dos nossos problemas, de otimismo e recomeço, de atitudes capazes de mudar a sua realidade. A sensação que dá é literalmente de explodir como um fogo de artifício, reunir sua luz interior e deixar que ela brilhe. O efeito visual  de cada caso do clipe é 100% contagiante e me emocionou de verdade em todos eles. Simplesmente fantástico, totalmente auto-explicativo, sem um pingo de mensagens clichê ou no estilo auto-ajuda!

Finalmente a Katy destacou-se por uma mensagem que realmente faz a diferença, e não por ser a menina que beijou outra garota numa festa ("I kissed a girl") ou por querer espiar o pinto alheio ("Peacock"). Firework foi tão tão brilhante que me injetou toda essa positividade por no mínimo uma semana e eu não quero parar de ver e ouvir tão cedo!

Parabéns e obrigado de coração, Katy Perry!


[...]

PS: Aos interessados, tem letra e tradução clicando aqui.

OBS: “Fourth of July” ou 4 de Julho, é o dia da independência dos EUA (país da Katy Perry), e por lá esse dia é comemorado de forma similar ao Réveillon, repleto de fogos de artifício... =)

26 de agosto de 2010

FROZEN


You only see what your eyes want to see
How can life be what you want it to be?
You're frozen
When your heart's not open.

(Frozen - Madonna)

Eu guardei meu coração num freezer. Ok, quase isso. Só arranquei o coração pra fora do seu espaço e, no seu lugar, coloquei um espelho de corpo inteiro, algumas garrafas de vodka, um mp3 player cheio de boas músicas, uns DVDs de pornografia e o meu celular. Eu finalmente ativei o meu lado egocêntrico e hedonista que, anteriormente, eu não tinha coragem nem vontade de abraçar. Tudo isso sem um pingo de ressentimento ou revolta, juro!

Nos últimos dois anos (que alguns de vocês acompanharam aqui no Sinapses) eu mantive o meu coração derretido, cheio, livre, solto demais. E com todo esse poder, por vezes ele dobrou a vontade do meu lado racional, quase sempre dominante. Por dois anos eu fui um Alysson compreensivo demais, humanizado demais, espiritualizado demais, muito cuidadoso com os sentimentos alheios, cheio de amor pra dar e sem esperar NADA em troca (não o tempo todo, não sou perfeito). E só recebi esse tipo de recompensa: mesmice, ingratidão, baixa consideração e indiferença (da maioria esmagadora, mas não de todos). E como sou um homem prático, se as coisas não estão dando certo, eu avalio as causas e fatores envolvidos no fracasso e tento mudar a minha tal realidade. Pode demorar um pouco em alguns casos, mas geralmente tarda sem falhar.

Por esse motivo, cansado de slap in my face, vou inverter tudo pro extremo oposto e recomeçar do zero na jornada pra alcançar um equilíbrio adequado. Até lá, coração em criogenia, duro como pedra, fechado, inacessível e intocável. Não pensem que é desilusão ou qualquer tipo de trauma, sério, não é nada disso. Só não quero assumir a responsabilidade por qualquer um que, ocasionalmente, acabar saindo machucado dessa história.

"Ok, Alysson. E o que isso muda, efetivamente?". Eu respondo: muita coisa, sobretudo os meus focos. Percebi que nesse tempo, a pessoa que eu menos amei foi o próprio Alysson, eu mesmo. E desgastado como estou, nada posso fazer pra contribuir positivamente com ninguém. Sendo assim, vou cuidar mais de mim, dos meus interesses, dos meus princípios e pontos de vista. É como eu disse, inicio uma fase egocêntrica, mas no melhor sentido que isso pode ter.

Quero me divertir, me aproveitar, me permitir. Isso significa recusar um ou outro favor, se eu tiver algo melhor em mente. Isso significa dizer "não estou interessado, obrigado", "não posso", "não quero" ou "vou estar ocupado com outra coisa", sem medo de causar qualquer má impressão. Até porque estive disponível, topando qualquer ajuda/tarefa/missão faz um certo tempo e foda-se quem resolver lembrar só das minhas respostas negativas, provavelmente são pessoas que não vão fazer falta. É claro que eu não vou ser uma pessoa ruim desnecessariamente, nem vou deixar de ser gentil ou prestativo. Só não vou dar ênfase nisso.

Eu quero dançar, beber, fumar, transar se e quando me der vontade. E negar tudo isso se a minha vontade recusar. Enfim, quero fazer comigo aquilo que me der vontade, viver a promiscuidade despudorada. Me dando o devido respeito e cagando e andando pra opinião alheia. Quero viver a maior boemia se isso estiver ao meu alcance. Eu não quero namorar. Eu quero não ter que ligar no dia seguinte pro garoto da noite anterior. E quero não ter que atendê-lo, caso ele ligue. Quero fazer isso sem me sentir mal. Eu quero dizer "você NÃO é importante pra mim" com a mesma sinceridade e efeito de quando eu digo "eu te amo".

E eu quero estudar mais, começar a trabalhar com entusiasmo (finalmente!), ler mais, pensar mais, meditar mais, assistir aquilo que me acrescenta ou que simplesmente me faz rir. Eu quero mais humor. E quero mais programas lights, como conversar com amigos por horas, sobre os temas mais relevantes ou sobre a mais fútil banalidade que nos vier na cabeça. Quero assistir filmes bons, e os ruins também. Quero ouvir música boa, e as ruins também. Quero perder o meu tempo numa tarde de RPG com amigos, numa noite de papo sob luz da lua ou numa caminhada solitária pela praia ao amanhecer.

Quero correr diariamente, pra cuidar da minha saúde e do meu corpo enquanto eu não posso pagar por uma academia. Quero ir ao dentista, ao médico, ao fisioterapeuta e ao psicanalista, nem que seja só pra ouvir um "está tudo bem". Quero mudar o corte de cabelo, cuidar da minha pele, quero precisar de uma manicure/pedicure, quero comer mais e melhor. Quero estar plenamente satisfeito com o espelho, dentro do possível.

Eu quero congelar a minha camada mais periférica e a casca do meu coração propositalmente. Eu quero estar tão bem comigo mesmo, ao ponto de me sentir completo sozinho, sem precisar de qualquer apoio ou "alma-gêmea". Eu vou aumentar as minhas chamas interiores, aquecer lentamente o que importa dentro de mim. E quando eu me cansar de aproveitar tudo o que eu sou e o que eu posso ser, só então eu irei procurar alguém tão completo quanto eu deverei estar.

Até lá, "quero ver apenas o que os meus olhos querem ver" e "estar congelado, enquanto meu coração não estiver aberto". Não é, Madonna?


3 de agosto de 2010

SOLTEIRO


Estou solteiro há alguns dias. Novamente. Mas sem queixas, sem arrependimentos e nem aquela sensação ruim de vazio e tédio das outras vezes. O que sinto agora é um misto de fadiga mental, sede social e alívio psicológico.

Dessa vez eu não detalharei passo-a-passo as (possíveis) causas do fim e nem vou enxer o meu ex de defeitos. Além de não haver a menor necessidade ou motivo que possa justificar esse ato, dessa vez as coisas foram diferentes: as causas do rompimento do namoro não estão claras na minha consciência, só estão evidentes no meu coração. O sentimento existiu de fato, eu realmente gostava dele; a diferença é que o sentimento não era maduro ou forte o suficiente pra sobreviver por uma longa temporada de crise e tortura emocional, pelo menos não intacto. O que eu sinto por ele não morreu, só mudou de uma quente paixão para uma amizade bem morna; um carinho que é frio demais pra aquecer um namoro. Diria que o sentimento ainda existe, mas está irreconhecível.

E dessa vez não existem xingamentos a serem vomitados ou defeitos a serem expostos. O meu ex é muito parecido comigo, é praticamente um "Alysson" com 18 anos (idade dele), um garoto muito cheio de certezas, (verdades indicutíveis) que, nos atuais 23 anos, foram substituídas, modificadas, adaptadas ou extintas.

Dessa vez eu estou bem. Eu me sinto bem com a minha decisão em finalizar um relacionamento que já não tinha mais sentido. Pelo menos não no meu coração. Finalizar tudo antes que os bons momentos fossem substituídos por brigas, boicotes, chateação mútua e farsa. Antes que as boas lembranças ficassem distantes demais para serem resgatadas. Antes que eu abrisse mão de ser o "Alysson" que eu sou para me tornar o "Alysson" que o meu ex-namorado e o relacionamento pediam.

Mesmo sendo difícil terminar um namoro, por melhor ou pior que ele tenha sido, eu me sinto orgulhoso por ter reunido a força necessária pra fazer o que eu acredito ter sido a coisa certa. Apesar do medo inicial, fico feliz de ter a coragem e o amor-próprio necessários para que eu estivesse bem, right now...

E tudo isso se justifica. Mesmo sendo bastante questionadas e desacreditadas as teorias holísticas, a física/medicina/ciência quântica, a lei da atração e as filosofias orientais; uma coisa que todas essas correntes de pensamento possuem e estão certas: seus sentimentos e sensações são verdadeiros "medidores" do seu atual estado de felicidade e paz-interior. Se você não se sente bem agora, jamais voltará a se sentir bem novamente a menos que modifique ou remova aquilo que te impede de ser feliz. E isso, tenho o orgulho de dizer, eu sei fazer muito bem!



17 de julho de 2010

SABEDORIA


Na vida eu tive muitos professores. Professores da escola, professores da faculdade, professores de natação, professores-amigos, professores de todos os tipos. Mas de um tipo específico de professor, eu tive bem poucos: professor de vida.

Meus pais não me ensinaram muita coisa sobre a vida, eles estavam preocupados demais em manter minhas notas altas, em manter meu comportamento social dentro do normal e, sobretudo, em me manter quieto dentro de casa. Talvez por isso eles nem se importassem tanto quando eu passava de 15 a 18 horas por dia plantado na frente de um vídeo-game ou computador... exceto quando a conta de energia vinha alta, claro Eles também não se importávam com minha vida social quase inexistente... a sexual então, nem se fala! Além disso, tudo o que eles insistiam em me ensinar já era exaustivamente repetido por outras pessoas, com mais freqüência por tios ou pelos professores da escola. Não é meu papel aqui questionar a educação que eu recebi de pais, professores e parentes, apesar de eu considerá-la moralista e hipócrita em uma série de aspectos, mas sim exaltar esses poucos “professores de vida” que eu tive.

Na falta de gente capacitada pra me ensinar como viver adequadamente, eu tive que aprender sozinho por muito tempo, e confesso que nem fui tão bem. Até que a própria vida botou dois amigos-professores na minha frente: o Laisse Faire e a Danone.

A Danone me ensinou a não julgar, foi a primeira grande lição que eu tive dela. Aos poucos, ela me ensinou o real valor de um amigo, de um jeito que eu não entendia antes. Ela me ensinou na prática o que eu já havia lido no Pequeno Príncipe: tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Depois ela me ensinou a fazer o bem, não somente pra “ir pro céu” ou esperando qualquer espécie de retorno. A Danone me ensinou inúmeras vezes a perdoar. E me ensinou que independente de como a sua família te trate, ela sempre será a sua família e você deve preservá-la (ou pelo menos tentar bastante) antes de somente julgá-la ou abandoná-la. Ela me ensina a cada dia a jamais desistir e a entender que nada do que você enfrenta é maior do que a sua capacidade de sobreviver. Ela me ensinou algo que eu havia perdido há anos: o significado de Deus, de religião, de espiritualidade, de fé e a importância disso na vida. E por fim ela me ensinou que não importa o quanto os seus problemas podem ser gigantescos, sempre haverá alguém com problemas maiores ou mais devastadores que o seu. E por mais incapaz e impotente que você esteja em relação aos problemas de quem você ama, um mero abraço, uma palavra de conforto ou um simples ouvido e ombro amigo podem fazer a diferença entre tudo e o nada.

O Laisse Faire, antes de ser sequer o meu amigo, me ensinou a ter paciência, e talvez ele nem saiba como fez isso. Ele foi a primeira pessoa com quem eu falei de minha sexualidade, antes de eu sequer aceitá-la, e ele ainda nem era meu amigo. E depois ele me ensinou a não ser odioso, a enfrentar problemas, a viver de cabeça erguida e a entender que não se deve levar as coisas, as pessoas e nem a vida tão a sério. E aí sim ele tornou-se o meu amigo. E mesmo vacilando algumas vezes comigo, ele acabou se fixando de uma forma totalmente permanente na minha vida. Foi ele quem melhorou meus hábitos de leitura e meu gosto musical. O Laisse Faire me ensinou que não basta rir, é necessário rir com um mínimo de inteligência, mesmo com a maior bobagem da humanidade. E ele, de uma maneira esquisita, me ensinou que o silêncio e a distância podem ser valiosos nos momentos certos, e que as coisas contraditórias não são exatamente ruins. O Laisse Faire me ensinou que amar não deve ser feito de forma leviana, que não se pode enganar o seu coração e que, mesmo que alguém te deixe em pedaços, ainda é possível viver, sobreviver, superar-se e ser feliz novamente, sendo capaz de rir das próprias histórias do passado e convivendo amistosamente com quem já te ofendeu ou te magoou.

A esses dois queridos amigos, eu só devo a maior gratidão, a maior consideração, um real sentimento de admiração, de companheirismo, de amizade e de uma ternura irônica e divertida. Obrigado de verdade por entrarem na minha vida, por me ensinarem mais do que eu merecia e por se manterem ao meu lado em toda hora. Eu não costumo falar isso publicamente, mas eu definitivamente AMO vocês!

OBS: abaixo, uma breve homenagem à Danone e ao Laisse Faire, respectivamente, músicas que eu simplesmente não consigo ouvir sem associar ao contexto desses dois grandes amigos!


ACCIDENTALY IN LOVE - COUNTING CROWS



LUZ DOS OLHOS - CÁSSIA ELLER

8 de fevereiro de 2010

CARTA À PRIMEIRA (E ÚNICA) MULHER DA MINHA VIDA


Seu bebê cresceu querida. 22 anos e alguns meses modificam um bocado as pessoas. Ou nem tanto. Mas se houveram mudanças, ninguém melhor que você (dentre todas as pessoas do mundo) para percebê-las. Você, aquela que eu sempre esqueço a necessidade de chamá-la pelo nome, pois não há palavra tão bela e com significado tão próximo de “amor” do que a que eu uso pra te chamar: MAMÃE.

Eu não lembro desde quando te conheço. Não sei quantas vezes te disse “te amo”. Não sei quantas vezes achei que te odiava (fique tranqüila, foi por minutos, no máximo horas). Não tenho idéia de quantas vezes te magoei, quantas vezes te orgulhei, quantas vezes te abracei... mas se eu pudesse escolher uma pessoa, somente uma, para entregar a minha vida, seria você. Sem dúvidas.

Mas seu bebê cresceu. Tem barba (ou um projeto de barba). Está formado. É bem inteligente, saudável, bonito (e foi você mesma quem me convenceu disso), tem bom caráter e, sobretudo, é ético. Um partidão, né? Nem tanto. Seu “bebê” tem defeitos, medos, dúvidas, incertezas, vergonhas, instabilidades; seu bebê ainda chora. Seu filho tem problemas que só o teu colo já não pode mais resolver. Seu filho pensa parecido com você em muita coisa, mas em várias outras, tem opiniões completamente diferentes da tua. Seu filho faz planos que você nem imaginaria, e que talvez você nem gostaria que se realizassem (tipo a minha futura tatuagem). E ainda assim, eu cresci e mudei. E continuo te amando, muito, sempre, hoje mais do que ontem e menos que amanhã.

Mãe, eu lembro de muita coisa. Lembro de quando você me deu o meu primeiro vídeo-game. Das vezes que você se divertia comigo aprontando no quintal de casa. Das viagens pra Belém e São Luís, durante minha infância. Ainda lembro da primeira vez que você me protegeu durante o medo que eu tinha de cães. Lembro de quando você descobriu minha aracnofobia. Lembro das inúmeras tardes que passávamos vendo os álbuns de infância. Lembro de quando íamos ao parque de diversões. Eu lembro também de bobagens, como quando você tentou esconder de mim o parto da minha gatinha de estimação me fazendo ouvir Xuxa. E de quando eu tentei espiar você e papai na cama. E de quando você encontrou as embalagens dos bombons que eu roubava da lojinha lá de casa. Lembro de como você ficou desapontada quando eu fiquei de recuperação pela primeira vez, na 6ª série. E do seu orgulho quando eu lutei sozinho e consegui entrar na melhor escola da cidade. E eu lembro da felicidade que você sentiu por eu ter te escolhido como minha madrinha de formatura na escola e também na da faculdade. E você sempre esteve linda, radiante, sorridente, forte. Lembro das vezes em que você me apoiou, como quando eu não conseguia parar de fazer xixi na cama (até os 13 anos). E de quando finalmente você entendeu que seu filho é gay e o que exatamente isso significa. E o apoio que você me deu. E de quando conversamos abertamente pela primeira vez sobre isso, quando você me levou de carro para eu terminar com o meu primeiro namorado. E de como você tratou bem e carinhosamente o meu atual namorado. E eu lembro das suas lágrimas, quando eu mudei para a capital e você continuou sozinha na sua vida e naquela cidadezinha. Lembro de como você ficou feliz ao saber que iríamos morar juntos de novo. Eu lembro, sinto e jamais esquecerei.

Não esquecerei seus valores, sua responsabilidade, sua força, seu amor, sua honestidade, sua confiança, sua estabilidade, sua fé. Não esquecerei da nossa constante e forte cumplicidade. Não esquecerei que uma enorme parte do que eu sou é produto daquilo que você me ensinou a ser. E existe muito de você em mim, muito mais do que seus genes ou seu sobrenome.

Portanto, minha mãe, meu amor, perdoe-me por cada ofensa, cada decepção, cada lágrima sua derramada por minha causa, cada briga, cada indiferença. Perdoe-me pelas grosserias que eu cometi, pela falta de suficientes demonstrações de amor. Perdoe-me pelo muro que eu tentei criar entre nós dois durante minha depressão, e que você, pacientemente, removia tijolo por tijolo, sem nunca desistir de mim. E obrigado por tudo. Pelos acertos e pelos erros, sempre recheados de intenções de acertar. Obrigado pelos presentes, pela criação, pelos mimos, pelo amor. Sou completamente orgulhoso do que me tornei e devo grande parte do que sou a você. Hoje e sempre. Por isso: MUITO OBRIGADO!!!

FELIZ ANIVERSÁRIO MAMÃE!!!
TE AMO INFINITAMENTE!!!

P.S.: Pra mim não existe melhor pessoa no mundo do que você, Mãe. TE AMO!!!

OBS: esta postagem deveria ter sido feita no dia do aniversário da minha mãe (05/02), mas a pós-graduação não permitiu. Sorry mom...

31 de janeiro de 2010

AINDA BEM


Dia 17 de Janeiro de 2010. Eu já estava bastante satisfeito com o dia. Pela manhã, fui à praia com a minha mãe e dois primos. Pela tarde, me diverti na piscina com mais uns primos e primas. No final da tarde e começo da noite, aproveitei meu tempo com uma amiga que tá mais pra irmã de sangue, e talvez de alma também, vai saber. E no fim da noite, marquei de sair com minha melhor amiga (páreo duro com essa amiga anterior, nem costumo categoriza-las assim por medo da rivalidade) numa boate. Tava bom demais pra ser verdade, dias perfeitos não são comuns, mas entrei na onda de otimismo que poderia terminar a madrugada ainda melhor. E funcionou.

Na boate, estava convicto de duas coisas: iria beber e não iria flertar. Eu andava meio “coração gelado” e sem um pingo de saco pra todo aquele joguinho de sedução necessário pra conhecer alguém. Os olhares, as insinuações, os flertes, todos foram desligados propositalmente. Sem nenhum tipo de 2ª intenção, comecei a dançar com minhas amigas, sem “sensualizar” (adoro!) pra ninguém. No máximo admirei a beleza alheia, sem dar sinais de interesse. E da mesma forma, comecei a beber sem um pingo de preocupação. Até que, lá pra 1 da manhã, ele aparece...

Eu não o vi chegar, não dei atenção especial, principalmente porque eu já estava bem ébrio. Mas ele se aproximou, perguntou meu nome, dançou comigo e me beijou. E quando eu me dei conta, estava adorando a companhia inesperada. Só havia um problema: existia uma certa urgência sexual em nós dois, o que imediatamente me deixou com um pé atrás. Mesmo assim, trocamos telefones e continuamos a diversão. E eu até confundi o nome dele, rsrs. Só que ele teve uma atitude que mudou toda a noite. Mudamos de lugar e, ao invés de prosseguir na “urgência sexual”, começamos um papo modesto, beijos carinhosos, tímidas carícias, tudo com certo receio. Logo estávamos a sós no meio de uma multidão, nos descobrindo lentamente e, falo por mim, gostando bastante da descoberta. Quando a noite acabou, o laço foi rompido e eu era só incerteza.

Acordei com boas lembranças, uma leve ressaca e uma angústia esquisita. Só restou as boas lembranças ao ver que ele já tinha ligado. Retornei. Ele queria me ver. Eu também queria vê-lo. Daí foi só deixar o fluxo do tempo e da sorte nos levar por um caminho de mais descobertas, várias semelhanças e muito carinho. No dia 21, por puro acaso, conhecemos as famílias um do outro (foi divertido e muito bom). No dia 22, sob insinuação direta do garotão, eu o pedi em namoro (com grande sucesso). No dia 24, a certeza e a declaração de estar apaixonado. Hoje, dia 31, faz exatos 15 dias que eu o conheci, já fizemos pequenos e tímidos planos em curto prazo e, de uma forma precoce, porém séria, firmamos um forte laço de compromisso (não, não é noivado ou coisa parecida).

Se é o certo ou se vai dar certo? Não foi rápido demais? Sinceramente eu não sei. Só sei que num período de boas mudanças e felicidades estáveis, ele é como uma “cereja no bolo”, como um presente adicional. Aliás, é como se fosse minha recompensa final. (que talvez eu nem mereça). E eu sei que é bom, verdadeiro e recíproco. A constante vontade de estar com ele e a saudade que eu sinto na sua ausência são provas de que, de alguma forma, ele tocou uma parte de mim que ainda estava totalmente inexplorada. E ele dá, a toda hora, sinais de cuidado e entrega.

Como eu estou bem, e ele me faz bem, então essas perguntas não me importam. Ainda bem... =)


11 de janeiro de 2010

O ROUXINOL E A ROSA


- Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas - lamentou-se o jovem Estudante. - Mas, em todo o meu jardim, não há nenhuma rosa vermelha.

De seu ninho, no alto de um azinheiro, o Rouxinol o ouviu e, admirado, olhou por entre as folhas.

- Nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim - lamentou-se. E seus lindos olhos se encheram de lágrimas. - Ah, como é frágil a felicidade! Li tudo que os sábios escreveram. Sei de todos os segredos da filosofia. Mesmo assim, por falta de uma rosa vermelha, sou um desgraçado nesta vida.


- Enfim, um verdadeiro amante - disse o Rouxinol. - Noite após noite cantei canções em seu louvor, sem nunca tê-lo conhecido. Noite após noite contei sua história às estrelas e agora o vejo. Tem os cabelos escuros como a flor do jacinto e os lábios vermelhos como a rosa que lhe falta, mas a paixão deixou-lhe o rosto pálido como o marfim e a tristeza selou seu semblante.


- O Príncipe dará um baile amanhã à noite - murmurou o jovem estudante - e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe levar uma rosa vermelha, dançaremos até o alvorecer. Se eu lhe levar uma rosa vermelha, tomá-la-ei em meus braços e ela deitará a cabeça em meu ombro e em minha mão pousará a sua. Mas, não há rosas vermelhas em meu jardim. Por isso, eu me sentarei sozinho em um canto e ela nem tomará conhecimento de mim. Ela passará por mim sem me notar e meu coração se partirá.


- Aí está, de fato, o verdadeiro amante - disse o Rouxinol. - As canções que canto, ele as vive em sofrimento. As histórias com que me alegro são as de sua dor. O Amor é mesmo maravilhoso. É mais precioso que os diamantes e mais estimado que a mais fina opala. Pérolas e romãs não podem comprá-lo, nem se pode encontrá-lo nos mercados. Os comerciantes não o vendem e a balança não é capaz de medir seu peso em ouro.


- Os músicos se sentarão em suas galerias - disse o jovem estudante -, farão soar as cordas de seus instrumentos e minha amada dançará ao som das harpas e violinos. E ela dançará tão suavemente que seus pés não tocarão o chão. Os cortesãos, em seus trajes festivos, formarão rodas em torno dela. Mas, comigo ela não dançará, porque eu não tenho uma rosa vermelha para lhe dar.


Atirou-se então na grama, enterrou o rosto nas mãos e caiu em pranto.


- Por que ele está chorando? - perguntou um pequeno Lagarto Verde, ao passar ao seu lado com a cauda levantada.


- É. Por quê? - disse uma Borboleta, que voejava em busca de um raio de sol.


- É. Por quê? - sussurrou uma margarida a outra, a voz suave e delicada.


- Ele está chorando por uma rosa vermelha - disse o Rouxinol.


- Por uma rosa vermelha? - exclamaram. - Que ridículo atroz!


E o pequeno Lagarto, que era um tanto quanto cínico, caiu na gargalhada. Mas o Rouxinol sabia o segredo da tristeza do Estudante e pousou em silêncio no galho de um carvalho, refletindo sobre o mistério do Amor. De repente, ele abriu as asas castanhas e alçou vôo. Passou pelo pequeno bosque como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim. No centro do gramado, havia uma bela Roseira. E, quando ele a viu, voou em direção a ela e pousou em um de seus ramos.


- Dê-me uma rosa vermelha - pediu - e eu lhe cantarei a mais bela canção.


A Roseira, porém, sacudiu a cabeça. - Minhas rosas são brancas - respondeu -, brancas como a espuma do mar e mais brancas que a neve que cobre a montanha. Mas vá ter com minha irmã que mora ao redor do velho relógio de sol. Talvez ela tenha o que você quer.


O Rouxinol então voou até a Roseira que morava ao redor do velho relógio de sol.


- Dê-me uma rosa vermelha - pediu - e eu lhe cantarei a mais bela canção.


A Roseira, porém, sacudiu a cabeça. - Minhas rosas são amarelas - respondeu -, amarelas como os cabelos da sereia que reina em seu trono de âmbar e mais amarelas que o narciso que floresce nos campos antes que o ceifador venha com seu alfange. Mas vá ter com minha irmã que mora embaixo da janela do Estudante.


O Rouxinol então voou até a Roseira que morava embaixo da janela do Estudante.


- Dê-me uma rosa vermelha - pediu - e eu lhe cantarei a mais bela canção.


A Roseira, porém, sacudiu a cabeça. - Minhas rosas são vermelhas - respondeu -, vermelhas como as patas das rolinhas e mais vermelhas que as grandes flores-de-coral que serpeiam nas profundezas do oceano. Mas o frio do inverno gelou minhas veias, a geada queimou meus botões e a tempestade quebrou meus ramos. Por isso, nenhuma rosa terei este ano.


-Tudo o que eu quero é uma rosa vermelha - desesperou-se o Rouxinol -, uma única rosa vermelha! Será que não há nenhum meio de conseguí-la?


- Há um meio - respondeu a Roseira -, mas é tão terrível que não ouso contar-lhe.


- Conte-me - disse o Rouxinol. - Não tenho medo.


- Se você quer uma rosa vermelha - prosseguiu a Roseira -, terá de cantar à luz do luar até nascer uma rosa, e tingí-la com o sangue de seu coração. Você terá de cantar para mim com o peito comprimido contra um espinho. Por toda a noite terá de cantar para mim com um espinho cravado no coração, até que o sangue que lhe dá vida corra em minhas veias e se torne meu.


- A Morte é um alto preço a se pagar por uma rosa vermelha - queixou-se o Rouxinol -, e a Vida é por todos estimada. Encanta-me pousar na verde relva e contemplar o Sol em sua carruagem de fogo e a Lua em seu rosário de pérolas. Doce é o perfume do jasmim; doces os lírios-do-vale e as magriças que desabrocham nas colinas. Ainda assim, o Amor é melhor que a Vida. E como pode o coração de um passarinho comparar-se ao de um homem?


Ele então abriu as asas castanhas e alçou vôo. Passou pelo jardim como uma sombra, e como uma sombra cruzou o pequeno bosque. O jovem Estudante continuava estirado na grama, onde ele o deixara, e as lágrimas ainda não haviam abandonado seus lindos olhos.


- Alegre-se - disse o Rouxinol -, alegre-se; você terá sua rosa vermelha. Cantarei à luz do luar até nascer uma rosa e tingí-la-ei com meu próprio sangue. Tudo que lhe peço em troca é que seja um verdadeiro amante, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia (e quão sábia é ela...) e mais forte que o Poder (e quão forte este é...). As asas do Amor são da cor do fogo e, como o fogo, colorido é o seu corpo. Doces como o mel são seus lábios e seu hálito é como o incenso.


O Estudante, deitado na grama, levantou os olhos e ouviu, mas não entendeu o que o Rouxinol lhe dizia, pois não era capaz de compreender senão as coisas que se escrevem nos livros. O Carvalho, porém, entendeu. E se entristeceu, porque muito estimava o pequeno Rouxinol que um dia havia feito um ninho em seus galhos.


- Cante-me uma última canção - suplicou -, sentirei muita solidão quando você partir.


O Rouxinol então cantou para o Carvalho, e sua voz era como água vertendo de um jarro de prata. Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se e sacou de seu bolso um caderno e um lápis.


Ele tem método - pensou o estudante, enquanto atravessava o pequeno bosque a caminho de casa - isso não se lhe pode negar; mas terá sentimento? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas: sobra-lhe estilo e lhe falta sinceridade. E não se sacrificaria por outros, pois pensa apenas na música. Todo mundo sabe que a arte é egoísta. Não obstante, deve-se admitir que há belas notas musicais em sua voz. É uma pena que nada signifiquem e que de nada sirvam.


Entrou então em seu quarto, deitou-se em sua cama de palha e começou a pensar na amada. Um pouco depois, adormeceu.


E quando a Lua brilhou no céu, o Rouxinol voou até a Roseira e lançou-se de encontro ao espinho. Por toda a noite ele cantou com o espinho em seu peito, e a fria Lua de cristal inclinou-se e escutou. Por toda a noite ele cantou, o espinho cravando cada vez mais fundo no peito, até que seu sangue se exauriu.


Ele primeiro cantou o amor que nasce no coração de dois jovens. E no mais alto ramo da Roseira, uma linda rosa desabrochou. Uma a uma, as pétalas despontavam, assim como uma a uma soavam as canções. De início, a rosa era alva como a bruma que cobre o rio - alva como a face da manhã e cor de prata como as asas da aurora. Reflexo de uma rosa em um espelho de prata ou em uma lagoa de cristal, assim era a flor que nasceu no mais alto ramo da Roseira.


Mas a Roseira rogou ao Rouxinol que apertasse ainda mais o peito contra o espinho.


- Aperte mais, pequeno Rouxinol - disse a Roseira -, ou o dia nascerá antes que a rosa esteja pronta.


O Rouxinol então pressionou ainda mais o peito contra o espinho. E cada vez mais alto soava sua música, pois cantava a paixão que nasce na alma de um homem e de uma donzela. As pétalas coraram-se de um delicado tom de rosa, como o que cora a face do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Mas, como o espinho ainda não atingira o coração do passarinho, o da rosa continuava branco, pois apenas o sangue do coração de um Rouxinol pode enrubescer o coração de uma rosa.


E a Roseira rogou ao Rouxinol que apertasse ainda mais o peito contra o espinho.


- Aperte mais, pequeno Rouxinol - disse a Roseira -, ou o dia nascerá antes que a rosa esteja pronta.


O Rouxinol então pressionou ainda mais o peito contra o espinho. E o espinho tocou seu coração, infligindo-lhe uma dor atroz. Cruciante, intolerável era a dor e cada vez mais frenética era a música, pois que ele cantava o Amor que a Morte torna perfeito, o Amor que no túmulo não morre. E a linda rosa era agora escarlate, como a rosa que nasce no leste. Escarlate era a coroa de pétalas e rubro como um rubi era o seu coração.


Mas a voz do Rouxinol ficou mais fraca. Suas asinhas começaram a bater e uma fina névoa embaçou-lhe os olhos. Cada vez mais baixo ele cantava, e sentia algo a lhe apertar a garganta. Então de seu peito irrompeu uma derradeira explosão de música. A Lua muito branca escutou-a e esqueceu-se da aurora, demorando-se no céu. A rosa vermelha escutou-a e, toda trêmula em êxtase, abriu suas pétalas no ar frio da manhã. Eco a conduziu até sua púrpura caverna nas colinas e acordou de seus sonhos os pastores adormecidos. Ela flutuou por entre os juncos do rio, que levaram sua mensagem ao mar.


- Veja! Veja! - exclamou a Roseira - A Rosa está pronta.


Mas, o Rouxinol nada respondeu, pois jazia morto no gramado com o espinho cravado no coração. Ao meio-dia, o Estudante abriu a janela do quarto e espiou lá fora.


- Ora essa! Que sorte incrível! - exclamou - Uma rosa vermelha bem aqui! Nunca vi uma rosa como esta em toda minha vida. É tão deslumbrante que certamente deve ter um nome bem comprido em latim.


Então inclinou-se e arrancou a flor. Depois colocou seu chapéu e, com a rosa na mão, correu até a casa do Professor. Sentada à porta com seu cachorrinho deitado a seus pés, estava a filha do Professor, enovelando um carretel de seda azul.


- Você disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse um rosa vermelha - lembrou-lhe o Estudante. - Aqui está a rosa mais vermelha do mundo. Você vai usá-la junto ao peito esta noite e, quando estivermos dançando, ela lhe dirá quão grande é o meu amor por você.


A garota franziu as sobrancelhas.


- Não creio que ela combine com meu vestido - respondeu. - Além disso, o sobrinho do Tesoureiro da Cidade enviou-me jóias de verdade. E todo mundo sabe que jóias custam muito mais que flores.


- Palavra de honra que você é muito ingrata - disse o Estudante, nervoso. E atirou na rua a rosa, que foi parar na sarjeta, onde acabou esmagada pela roda de uma carroça qualquer.


- Ingrato! - exclamou a garota. - Sabe de uma coisa? Você é muito grosseiro. Além do mais, não passa de um Estudante. E nem ao menos usa sapatos com fivela de prata, como os do sobrinho do Tesoureiro. Inacreditável!

- Levantou-se então da cadeira e voltou para dentro de casa.


- Que tolice é o amor - refletiu o Estudante, enquanto retornava. - Não tem nem a metade da utilidade da Lógica. Além de não provar coisa alguma, está sempre iludindo as pessoas e fazendo-as acreditar em inverdades. Com efeito, não tem praticidade alguma. E, como hoje em dia praticidade é tudo, voltarei à Filosofia, vou estudar Metafísica.


De volta ao seu quarto, o Estudante retirou da prateleira um grande e empoeirado livro e começou a ler.

[...]

“O Rouxinol e a rosa” é um dos contos do livro “Histórias de fadas”, publicado pela primeira vez em 1888 por Oscar Wilde. Ele escreveu um livro de contos infantis para os próprios filhos e sua intenção era mostrar, além dos príncipes, gigantes e rouxinóis, a vida como ela é e como deve ser vivida.

Conheci este conto na época da escola, e nunca me conformei com o seu desfecho lamentável. Agora, com um pouco mais de experiência de vida, pensei sobre os personagens dela e te convido refletir junto comigo:

1- Como o Estudante, existem pessoas que desistem ante a primeira dificuldade e, mesmo quando conseguem resolver seus problemas, exigem dos outros valorização e esforços que eles mesmos nunca tiveram, fizeram ou experimentaram. São pessoas fracas.

2- Como os Animais, existem pessoas que ridicularizam o sofrimento alheio sem sequer tentar entender. São pessoas levianas.

3- Como a Roseira das rosas vermelhas, existem pessoas que nos ajudam em gigantescas necessidades. E que às vezes nos solicitam sacrifícios em troca de grandes recompensas, e sempre que possível nos dão a oportunidade de escolher. São bons amigos.

4- Como a Filha do professor, existem pessoas que nos exigem muito, mais do que podemos conseguir e que sequer pensam em retribuir. E mesmo quando suas exigências são cumpridas, novas exigências são feitas, nada as satisfaz. São pessoas egoístas e ingratas.

5- E finalmente, como o Rouxinol, existem pessoas que estão prontas pra lutar por aquilo que consideram verdadeiramente nobre: o amor, a justiça, o caráter, o bom-senso, etc. Lutam apaixonadamente mesmo que grandes sacrifícios sejam necessários. São as melhores pessoas que eu conheço!!!

Quantos Estudantes, Animais, Roseiras, Filhas e Rouxinóis existem em sua vida? Reflitam.